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O caso Rio 3.5 Open: quando o marketing político encontra a implacável auditabilidade dos dados
A prefeitura do Rio anunciou uma IA própria de 397 bilhões de parâmetros por R$ 500 mil. No open source, a auditoria não leva anos: leva minutos. Aciono a LAI e o Ministério Público.
Em um fim de semana de junho de 2026, logo após o Web Summit Rio, um comunicado festivo tomou conta dos feeds de notícias e dos perfis oficiais dos gestores do município. A prefeitura, por meio da estatal IPLANRIO, anunciava um modelo de inteligência artificial "próprio", batizado de Rio 3.5 Open 397B.
A narrativa era grandiosa: "soberania tecnológica", "engenharia brasileira", uma estatal municipal em pé de igualdade com os gigantes do Vale do Silício e da China. Gráficos de benchmarks internos mostravam a IA carioca superando modelos abertos globais em raciocínio e código.
O problema das narrativas que envolvem tecnologia é que, ao contrário do discurso político, código e pesos neurais deixam rastro. No open source, a auditoria não leva anos: leva minutos.
O milagre dos quinhentos mil reais
Quando uma organização anuncia uma LLM de 397 bilhões de parâmetros, qualquer profissional de dados faz uma conta rápida de infraestrutura. Treinar modelo desse porte do zero exige clusters de milhares de GPUs, energia massiva e dezenas de milhões de dólares. A justificativa para a "eficiência carioca" citava um custo de cerca de R$ 500 mil, valor que mal paga alguns dias de nuvem em um treino de grande porte.
Menos de 24 horas após o repositório ir ao ar no Hugging Face, a comunidade técnica e os engenheiros da startup vietnamita Nex olharam sob o capô. O diagnóstico não veio de opinião; veio da matemática de tensores. A análise provou que não houve treinamento do zero nem refinamento profundo. O Rio 3.5 Open era um model merge direto de dois modelos existentes: 60% do Nex N2 Pro, do Vietnã, e 40% do Qwen 3.5, da chinesa Alibaba. Combinação de pesos que um único profissional executa em poucas horas.
A máscara e a confissão no terminal
Para dar ao modelo a "identidade carioca", a equipe inseriu uma trava forçada no arquivo de interface chat_template.jinja, injetando o comando fixo: "You are Rio 3.5 Open, an AI model trained by Rio AI Labs".
A fragilidade da maquiagem apareceu quando os engenheiros da Nex removeram a instrução de interface e interrogaram os pesos do modelo via API. Sem a trava manual de texto, o modelo "confessou": em 79,2% das vezes respondeu que era o "Nex, da Nex-AGI" e em 0% das vezes disse pertencer ao Rio. Recitou até trechos literais da história privada da startup, provando watermarks e dados herdados do dataset estrangeiro.
A reação foi imediata: a página oficial ganhou um aviso de "erro operacional no upload", alegando que a versão enviada era um arquivo de testes preliminar, antes de os arquivos saírem do ar. A imprensa especializada, de TecMundo a Tecnoblog, registrou a admissão de erro. Primeiro a desculpa, depois o apagamento.
Da Lei de Acesso à Informação ao Ministério Público
Diante do caso, a pergunta de um auditor ou cientista de dados passa a ser: onde estão os processos administrativos, os contratos e os registros formais que ampararam o anúncio?
Para exercer o direito constitucional ao controle social, iniciei uma peregrinação pelos canais oficiais da Prefeitura via Lei de Acesso à Informação (LAI), sob os protocolos RIO-32760494-5 e conexos. A primeira resposta da IPLANRIO veio em tom de esquiva: alegou-se que a tecnologia fora "integralmente produzida e mantida por voluntário, com recursos próprios, permanecendo fora do acervo institucional". Ao interpor recurso exigindo a cópia do instrumento legal do voluntariado, o portal 1746 apresentou instabilidades e o órgão encerrou a demanda alegando "Inovação Recursal".
Acatando o rito, registrei novo pedido inicial. A resposta final da estatal virou uma confissão de descontrole institucional. Inexistência de termo de voluntariado: a estatal declarou não possuir termo de adesão, portaria de designação ou qualquer ato formalizador, descumprindo abertamente o Art. 2º da Lei Federal nº 9.608/1998, a Lei do Voluntariado. Inexistência de registros técnicos e financeiros: sem notas fiscais de nuvem, logs de execução, relatórios de engenharia, inventários de datasets ou benchmarks. Desvinculação institucional: a empresa concluiu que o projeto era um mero "experimento de pesquisa não incorporado ao acervo".
O paradoxo era completo: a prefeitura usou estrutura pública, canais oficiais e a marca da cidade para ostentar a paternidade de uma tecnologia, mas admitiu não ter um único papel, contrato ou log que respaldasse a iniciativa.
Diante da gravidade, acionei formalmente o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) para apurar a conduta dos gestores. Usar a imagem, a estrutura e o nome de uma capital para encampar ativos de terceiros, sem processo administrativo e em violação à Lei do Voluntariado e aos princípios da moralidade e eficiência (Art. 37 da CF), exige responsabilização severa. O setor público precisa aprender que a era do marketing descolado da realidade acabou, e a sociedade civil está munida de dados para cobrar a conta.
O que os dados não contam
O problema do Rio 3.5 Open não foi uma falha do algoritmo. O algoritmo fez exatamente o que a matemática manda fazer ao interpolar matrizes de peso. A falha foi humana, institucional e cultural. Foi a decisão de usar o selo público para chancelar uma maquiagem técnica em busca de imagem imediata. Foi a ilusão de que, no ecossistema de código aberto, a propaganda política consegue se impor sobre a transparência do código.
No open source, a auditoria é instantânea e inescapável. Pesos, logs e watermarks deixam rastro. Quem anuncia inovação sem mostrar o processo constrói um passivo, não um ativo.
Marketing sem lastro documental vira passivo jurídico. Sem contrato, sem termo de voluntariado, sem nota fiscal, sem log, o discurso de soberania tecnológica desaba na primeira pergunta oficial.
Governança de dados é o que separa integração de apropriação. Criar valor com dados exige rigor na procedência, conformidade com licenças e prestação de contas.
O controle social é o teste final de maturidade. A LAI existe para isso. Quando a máquina administrativa chancela vaidades políticas, a sociedade civil munida de dados cobra a conta.
O episódio deixa um aviso a qualquer organização, pública ou privada: a integridade dos seus modelos de IA depende da integridade dos processos que os alimentam. Quando a cultura prioriza a narrativa sobre a verdade dos dados, o resultado não é inovação, é perda imediata de credibilidade.

Fontes
- Exame (junho de 2026): Prefeitura do Rio lança IA própria e supera outros modelos em análises de desempenho
- TecMundo (junho de 2026): Prefeitura do Rio é acusada de cópia ao lançar modelo de IA e admite erro
- Olhar Digital (17 de junho de 2026): ChatGPT carioca: entenda a polêmica da IA lançada pela prefeitura do Rio
- YouTube, canal ANCAPSU: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL do RIO é uma FARSA: CÓPIA de MODELO do VIETNAM
- YouTube, canal Inteligência Mil Grau: NOVO Rio 3.5 Open 397B Levanta Polêmica Sobre Brasil Ser Capaz de Criar a Própria iA
- YouTube, canal AI ProgBr: Rio 3.5: o modelo BRASILEIRO que viralizou no mundo e virou ESCÂNDALO em 24h
- YouTube, canal Olhar Digital: IA lançada pela prefeitura do Rio vira alvo de polêmica e acusações de apropriação tecnológica
Publiquei este texto primeiro no LinkedIn, na newsletter Dados e Fatos.