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A pesquisa que não consegue mais ouvir o eleitor
Era uma vez uma ferramenta que sabia o que o Brasil inteiro pensava. Ela não ficou burra. O Brasil é que parou de abrir a porta, e o eleitor aprendeu a esconder o voto.
Era uma vez uma ferramenta que sabia o que o Brasil inteiro pensava. Ela batia na porta das casas, subia as escadas dos prédios, parava o eleitor na praça, fazia algumas perguntas e, num passe de mágica estatística, dizia quem seria o próximo presidente. Durante décadas, ela acertou. E então, silenciosamente, o mundo mudou, e ela não percebeu.
A prancheta que abria todas as portas
Nos anos 1980 e 1990, a cena da pesquisa brasileira era sempre a mesma. Um entrevistador com uma prancheta na mão e um mapa do bairro no bolso batia de porta em porta. Cumprimentava o porteiro, subia as escadas, pedia licença na casa da dona Maria. E a dona Maria recebia, respondia, às vezes oferecia um café. A pesquisa de rua e a domiciliar eram o padrão dos institutos brasileiros, como Datafolha e Ibope. Quase todo mundo respondia.
No Brasil, o telefone nunca foi o retrato do país. Em 1980, havia cerca de 5 linhas fixas para cada 100 habitantes. Telefone era artigo de luxo, e o telefone residencial, raridade. A era de ouro da pesquisa por telefone, que nos Estados Unidos durou décadas, aqui mal chegou a existir. O nosso método sempre foi cara a cara.
E o método funcionava porque combinava duas coisas que hoje se perderam. Primeiro, um sorteio de verdade: o IBGE divide o país em setores censitários, e o instituto sorteia quarteirões, depois domicílios, depois pessoas. Cada eleitor tinha uma chance conhecida de ser escolhido, e é isso, e não o tamanho da amostra, que garante que o retrato saia fiel. Segundo, uma sociedade que abria a porta. O entrevistador chegava, a dona Maria recebia, e a resposta era uma janela para o que o país de fato pensava.
A porta que fechou
Trinta anos depois, o entrevistador de prancheta virou peça de museu. O condomínio tem portaria com interfone, o síndico não deixa entrar, as áreas de risco viraram território que o pesquisador não pode pisar, e o brasileiro, desconfiado, olha pelo olho mágico e não atende. Nos Estados Unidos, a crise das pesquisas foi contada pela queda das ligações atendidas: a taxa de resposta despencou de 60% para 6%. No Brasil, a crise é a mesma, com outra cara: a entrevista cara a cara ficou cara demais, lenta demais e arriscada demais. E quem abre a porta não representa mais quem não abre.
O mapa também envelheceu. O Censo de 2020 foi adiado e só saiu em 2022, e a cada ano envelhece mais. Bairros mudam, condomínios surgem, favelas crescem, e o mapa que o pesquisador carrega não é mais o bairro real. Como a porta não abre, os institutos apelam para as cotas, preencher casas com perfis certos, tantos homens, tantas mulheres, tantos jovens, tantos idosos, até a conta fechar. E, para baratear, cresceram os painéis online, onde o eleitor se cadastra e responde pela internet. Mas cotas não são sorteio, e painel online é pior: só responde quem quer, quem tem internet e quem tem paciência. É como montar um quebra-cabeça com peças que sobraram. O erro não está no tamanho da amostra, está em quem foi entrevistado.
O eleitor que aprendeu a mentir
E o eleitor também mudou. Antigamente, o brasileiro decidia o voto cedo, conversava com a família, via o horário eleitoral e fechava questão. Hoje, ele vive dentro de uma bolha digital que lhe mostra só o que o algoritmo acha que ele quer ver. A opinião se forma num fluxo constante de vídeos, memes e posts, e muda a cada notificação.
O voto virou decisão de última hora. Nas vésperas das eleições, milhões de eleitores ainda estão em aberto, esperando o debate, a pesquisa, o escândalo da semana. A pesquisa feita sete dias antes vira uma fotografia de um rosto que já mudou.
Pior: o eleitor aprendeu a esconder o voto. Num país dividido ao meio, ninguém quer ser julgado. Quando o pesquisador pergunta, a pessoa responde o que é aceitável, não o que vai fazer. O voto envergonhado, o tal shy voter, cresceu junto com o medo do cancelamento. Em 2018, as pesquisas brasileiras subestimaram o voto em Bolsonaro até a véspera do primeiro turno: as urnas mostraram 46% onde as pesquisas viam 32%. Uma multidão silenciosa mentia para o pesquisador e votava na cabine.
Quatro anos depois, o fenômeno se repetiu. No primeiro turno de 2022, o Datafolha (registro BR-01682/2022 no TSE), o instituto mais respeitado do país, errou o voto em Bolsonaro por 7,1 pontos percentuais, e o Ipec (BR-02095/2022), por 6,1. O melhor desempenho ficou com o AtlasIntel (BR-06012/2022), que errou 1 ponto. Institutos com amostras gigantes e margem oficial de 2 pontos erraram mais de três vezes o que declaravam: a pesquisa mede a intenção, e a intenção já não é mais o voto.
Junte tudo e o quadro fica claro. A pesquisa é um instrumento do século XX: foi desenhada para uma sociedade que abria a porta para o entrevistador, decidia o voto cedo e dizia o que pensava sem medo. A sociedade de hoje é outra, conectada, desconfiada, volátil e dividida. O instrumento não mudou. O objeto medido, sim. É como tentar fotografar um carro em movimento com uma câmera de 1990: a foto sai, mas o carro já passou.
O caminho de volta
A saída existe, mas começa por uma franqueza: a lista com o endereço de cada eleitor é sigilosa. O cadastro eleitoral do TSE guarda os dados de 155 milhões de brasileiros, porém a Justiça Eleitoral não os entrega a empresas privadas, e a Lei Geral de Proteção de Dados reforça esse muro. Quem sonha em sortear sobre essa lista precisa dizer antes o que a lei permite, e a resposta honesta é: hoje, quase nada de individual. O caminho de volta não passa por furar o muro. Passa por aprender a enxergar o que já está do lado de fora.
E o que está do lado de fora não é pouco. O TSE divulga em arquivos abertos o retrato agregado do eleitorado: quantos eleitores tem cada município, quantos homens, quantas mulheres, a idade e a escolaridade de cada faixa. E divulga também o resultado oficial de cada eleição, seção por seção. O mapa estatístico do eleitor está disponível para quem quiser calibrar, sem invadir um único endereço.
O primeiro movimento é usar esse mapa para conferir com a realidade. O voto passado é o melhor professor. Se a amostra diz que um bairro votou 60% no candidato A na eleição anterior e o resultado real foi 40%, o peso daquele bairro é corrigido. É a calibragem que os institutos já fazem, mas de forma tímida; feita bairro a bairro, com os resultados oficiais do TSE, ela transforma a pesquisa num instrumento que aprende com os próprios erros.
O segundo movimento é aceitar que ninguém responde por um único canal. A pesquisa precisa ser híbrida: quem não abre a porta talvez atenda o telefone, quem não atende o telefone responde no celular, quem não responde no celular aparece no painel online. Cada modo alcança um pedaço do eleitorado, e a estatística junta as peças, calibrando os pesos entre os modos. A porta fechada deixa de ser um beco sem saída, vira só um caminho entre vários.
O terceiro movimento depende da lei, não da estatística. Vale a pena discutir um acesso controlado ao cadastro para fins exclusivos de amostragem, com as salvaguardas que a LGPD já desenhou, finalidade definida, minimização de dados e nenhum contato com o eleitor sem consentimento. Não é abrir a lista para qualquer um; é abrir uma janela estreita e vigiada, com responsabilidade para quem desviar.
E há um limite que nenhum movimento remove: o eleitor de última hora. Ninguém vai prever o voto de quem decide na cabine. Mas a pesquisa pode, ao menos, medir o tamanho da indecisão e a direção do movimento, em vez de fingir que eles não existem. O papel dela não é ser profecia. É ser mapa.
O que aprendemos com dados e falhas
Sorteio vale mais que tamanho: uma amostra pequena e honesta erra menos que uma gigante torta. O erro não está no número de entrevistas, está em quem foi entrevistado.
Quem não responde é um dado perdido: a queda da taxa de resposta, seja na ligação que ninguém atende ou na porta que ninguém abre, é o maior viés silencioso das pesquisas modernas, e nenhum peso estatístico recupera quem nunca respondeu.
A margem de erro oficial é otimista: o intervalo divulgado ignora a recusa, a mentira e a decisão de última hora, que hoje pesam mais que o erro do sorteio.
Em sociedade digital, medir intenção é medir ruído: o voto declarado se afastou do voto real. A pesquisa continua sendo a melhor fotografia do momento, só que o momento mudou de natureza.
A solução esbarra na lei, e isso também é um dado: o endereço do eleitor é sigiloso. O caminho público existe, calibragem com resultados oficiais e perfil agregado do TSE, e o acesso controlado à lista é conversa que depende do Congresso, não do estatístico.
No fim das contas, a pergunta certa não é "as pesquisas vão acertar?". É: "o que estamos medindo?". A ferramenta que ouvia o Brasil inteiro não ficou burra. O Brasil é que parou de abrir a porta. O que não pode é a pesquisa desistir de ouvir: os dados públicos, os resultados oficiais e o eleitor que ainda responde ainda são suficientes para um mapa melhor. Falta a ferramenta aprender a bater onde pode.

Fontes
- Datafolha, instituto de pesquisas (metodologia de pesquisa domiciliar e de rua)
- IBGE, Censo Demográfico 2022 (setores censitários e telefonia nos domicílios)
- LGPD, Lei 13.709/2018 (princípios de finalidade e minimização, base do sigilo dos dados pessoais)
- Pew Research Center (15/05/2017), What low response rates mean for telephone surveys (queda da taxa de resposta nos EUA)
- FiveThirtyEight (2020), A Favorability Review of 2020 General Election Polls
- AAPOR, An Evaluation of the 2016 Election Polls in the United States (relatório da American Association for Public Opinion Research)
- TSE, Registro de pesquisas eleitorais (sistema PesqEle)
Publiquei este texto primeiro no LinkedIn, na newsletter Dados e Fatos.