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Para relaxar, alguns jogam bola. Eu prefiro encher o saco de políticos
Tem gente que joga futebol para desestressar. Eu preciso encher o saco de políticos. A pergunta do meu TCC foi só uma: como automatizar isso, com um plus a mais?
Tem gente que gosta de jogar futebol para desestressar no fim de semana. Outros tocam um instrumento musical, correm no parque ou devoram livros de ficção. Eu? Para relaxar, preciso encher o saco de políticos.
Essa inquietação não é de hoje. Sempre me revoltou ver os gastos absurdos dos parlamentares e perceber que, embora os Portais da Transparência existam, eles operam sob um verdadeiro nevoeiro informacional. Os dados estão lá, mas são jogados de uma forma que impede o cidadão comum de compreender, cruzar informações e, principalmente, exigir uma mudança de comportamento de quem foi eleito.
Por um tempo, canalizei essa energia participando da OPS (Operação Política Supervisionada), idealizada pelo jornalista Lucio Big. Lá, de forma artesanal, levantávamos esses valores, investigávamos notas fiscais e cobrávamos as autoridades para que os recursos voltassem aos cofres públicos. Foi uma escola fantástica de fiscalização.
Mas quando comecei a cursar Ciência de Dados na Univesp, a minha mente deu um estalo. Eu já sabia, desde o primeiro dia de aula, qual seria o tema do meu Trabalho de Conclusão de Curso. A pergunta que eu queria responder era uma só: como posso automatizar o processo de encher o saco de políticos, mas com um plus a mais?
O desafio de monitorar o invisível
O Poder Legislativo é fundamental para o país, mas, pelo volume gigantesco de atores, ele acaba sendo pouco ou quase nada fiscalizado de verdade. Eu queria criar um sistema que não apenas mostrasse as verbas indenizatórias, mas que servisse como um guia definitivo para orientar o eleitor na hora de escolher um deputado federal.
Estou há três anos trabalhando silenciosamente neste projeto. Foram meses processando, de maneira caseira e obstinada, milhões de dados para entregar um panorama real ao cidadão antes que ele chegue à urna. Queria respostas para perguntas essenciais:
- Quem foi esse deputado na última legislatura?
- O discurso dele no plenário bate com a prática de votação?
- Ele gasta a verba pública com responsabilidade?
- Para onde vão, de verdade, as emendas parlamentares dele?
- O que ele fala nas comissões e onde fica o seu reduto eleitoral?
O resultado desse esforço é o Eu Sei Disso, Deputado. Não se trata de um portal de notícias, mas de uma plataforma de inteligência cidadã. Consegui traduzir a burocracia por meio de dados visuais, comparações, georreferenciamento e cruzamento de dados brutos da Receita Federal, do Portal da Transparência, da Câmara dos Deputados e do TSE.
Até o momento, o sistema já processou:
- R$ 1,5 bilhão em gastos de gabinete analisados
- R$ 18,3 bilhões em emendas parlamentares rastreadas
- 1,5 milhão de discursos processados
- 2,2 milhões de votos analisados em comissões e plenário
Apresentando o auditor Antunes
Para tornar toda essa montanha de dados palatável e acessível para qualquer pessoa, eu sabia que precisava de uma abordagem lúdica. Foi assim que nasceu o Antunes, o agente de Inteligência Artificial que opera dentro da plataforma.
O Antunes não nasceu de uma linha de código moderna e superficial. Ele foi forjado mentalmente nas gavetas de arquivo de aço e no cheiro de papel carbonado dos porões de Brasília. Imagine aquele auditor da velha guarda, que usa suspensórios, revisa balanços com uma lupa e conhece cada artimanha que o poder usa para se esconder atrás de normas técnicas e regimentos internos.
Ele se aposentou dos corredores físicos dos Três Poderes, mas o espírito de fiscalização nunca descansa. Agora, com uma memória digital que cruza dados na velocidade de um raio, ele analisa as contas públicas e atua dentro de um chatbot para tirar as dúvidas do cidadão comum de forma direta, sem "juridiquês". Ele é incansável, rigoroso e totalmente imparcial. Não aceita "erro de digitação" como desculpa.
Como todo bom auditor, o Antunes sabe que não é o juiz nem o carrasco. O papel dele é o diagnóstico: apontar o erro, desmascarar a inconsistência e entregar a prova. A partir daí, o poder volta para onde sempre deveria estar: nas suas mãos.
O próximo passo
Em breve, este projeto será apresentado formalmente como meu TCC na Univesp. Não sei qual será a avaliação da banca acadêmica, mas a minha maior satisfação é saber que utilizei o conhecimento adquirido na universidade para devolver uma ferramenta prática de cidadania e transparência para a sociedade.
O monitoramento é nosso. A cobrança do resultado é sua. Para conhecer o Antunes e vasculhar os dados do seu deputado, acesse euseidissodeputado.com.br.
Publiquei este texto primeiro no LinkedIn, na newsletter Dados e Fatos.